Investigados em esquema de cestas básicas tiraram selfie com montes de dinheiro

Investigado na Operação Fames-19 tirava fotos com maços de dinheiro
Reprodução/Relatório do STJ
Os investigados por suspeita de participação no esquema das cestas básicas tiravam fotos com maços de dinheiro. Segundo a Polícia Federal (PF), as notas eram usadas para pagar propinas. As imagens constam no relatório do ministro Mauro Campbell, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), que afastou o governador e a primeira-dama, Karynne Sotero Campos, na segunda fase da Operação Fames-19.
Em uma das imagens, Marcus Vinícius Santana, filho de Taciano Darcles, ex-assessor especial do governador, aparece com uma bolsa recheada com notas de R$ 50, R$ 100 e R$ 200. As fotos foram tiradas dentro de um carro e em um gabinete. Na decisão, o ministro afirma que Marcos agia como “operador financeiro” de Wanderlei.
Ainda segundo o relatório, o dinheiro era usado para o “pagamento das propinas ao governador do Estado e aos demais agentes envolvidos” no esquema criminoso. A denúncia também aponta que os valores desviados eram usados para quitar despesas pessoais do governador.
“É possível depreender a sistemática adotada pela organização criminosa para dissimular, camuflar, e até mesmo impedir o rastreamento dos atos de recebimento e distribuição de vantagens indevidas”, afirmou o ministro.
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Conforme o documento, Marcus seria o responsável pelas transferências bancárias e saques de valores que eram repassados a Taciano ou a Thiago Barbosa, sobrinho do governador, “os quais se incumbiriam de, posteriormente, entregar tais valores em espécie aos demais envolvidos, neles incluído o governador”
A defesa de Thiago Barbosa informou que o nome dele foi inserido na decisão por “absoluto equívoco”, pois ele não é investigado na Operação Fames-19 e não foi alvo das medidas cautelares, e que já adotou providências para que o nome de Thiago seja excluído das investigações (veja nota completa abaixo).
O g1 tenta contato com a defesa de Marcus Vinícius Santana e Taciano Darcles.
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Dinheiro em gabinete
Na primeira fase da operação, em agosto de 2024, policiais federais cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços do governador, entre eles o gabinete no Palácio Araguaia — sede do governo local.
Os investigadores encontraram R$ 32,2 mil em espécie no gabinete do governador junto dos carimbos de Barbosa e de seu chefe de gabinete, Marcos Martins Camilo. Ele foi exonerado no dia seguinte.
Dinheiro apreendido em gaveta do chefe de gabinete do governador Wanderlei Barbosa, em 2024
Reprodução/Relatório do STJ
Segundo a PF, o fato de integrantes do esquema sacarem “grandes quantias em espécie” e os valores apreendidos no gabinete do governador “reforçam a convicção de que atos de corrupção passiva, de fato ocorreram e continuam a ocorrer na sede do Poder Executivo estadual”, diz trecho da investigação.
Além do dinheiro encontrado na sede do governo tocantinense, a polícia apreendeu mais R$ 35,5 mil, US$ 1,1 mil e 80 euros no escritório que fica na casa de Wanderlei.
Como funcionava esquema de cestas básicas
Segundo a decisão, o esquema era realizado em quatro núcleos: agentes políticos, servidores públicos, empresarial e núcleo financeiro e de lavagen de capitais. Entenda como funcionava cada um deles.
Núcleo de agentes políticos
A investigação apontou a atuação do alto escalão do governo no esquema, iniciando com Wanderlei Barbosa, sua esposa Karynne Sotero e seguia com o ex-secretário da Setas, José Messias Alves de Araújo.
Esse núcleo, segundo a decisão, também incluía agentes do Poder Legislativo Estadual, que destinavam recursos, por meio de emendas parlamentares, para a aquisição de cestas básicas em troca de vantagens indevidas.
O g1 tenta contato com o José Messias Alves.
Núcleo de servidores públicos
O núcleo ficava responsável pelas operações, direcionando licitações e atestando falsamente o recebimento das cestas básicas, com o propósito de “amparar documentalmente o desvio de recursos perpetrado”. Parte dos serviços era realizada por assessores especiais que eram subordinados a Wanderlei Barbosa.
Segundo a investigação, uma pessoa ficava responsável pelas transferências bancárias e saques de valores que eram repassados para o assessor Taciano Darcles Santana Sousa ou Thiago Marcos Barbosa, sobrinho do governador. Esses valores eram entregues em espécie aos outros envolvidos no esquema, incluindo o Wanderlei Barbosa.
Também foi identificado que o chefe de gabinete do governador e uma outra pessoa realizavam depósitos em espécie de forma fracionada em favor do governador, além de pagamentos de boletos de valores elevados o favorecendo.
Na época da primeira fase da Fames-19, servidores citados no esquema foram exonerados. Entre eles, Taciano Darcles e o chefe de gabinete, que foi nomeado novamente para o mesmo cargo no dia 8 de agosto de 2025.
Núcleo empresarial
Nessa parte do esquema, as empresas que eram previamente selecionadas simulavam uma situação de ampla concorrência. Elas eram usadas no desvio dos recursos públicos, ao fingir as entregas das cestas básicas.
Conforme as investigações, o esquema seguia o modus operandi de transferir a participação social de empresas existentes ou a criação de CNPJs em nome de laranjas, que muitas vezes eram beneficiários do auxílio emergencial durante a pandemia.
Essas empresas eram operadas por meio de procurações condedidas a pessoas legadas aos esquemas.
“Todas estas empresas figuraram como destinatárias de vultosas quantias de recursos públicos, supostamente utilizados para a aquisição de cestas básicas de papel, durante a fase aguda da pandemia de COVID-19, e em contratos de fornecimento de bens e serviços que se seguiram à pandemia, estando ainda em andamento a investigação quanto aos destinatários dos valores desviados, que supostamente se envolveram na lavagem do capital ilicitamente amealhado”, diz a decisão.
Núcleo financeiro e de lavagem de capitais
O núcleo financeiro agia no recebimento de vantagens ilícitas e envio de valores que depois eram sacados e distribuídos entre os membros da organização. A polícia identificou que parte desses recursos desviados era repassada para a Pousada Pedra Canga, um empreendimento de luxo na Serra de Taquaruçu, que pertence ao filho do governador, Rérison Antônio Castro Leite.
Segundo a decisão, uma conversa entre o filho do governador e o chefe de gabinete no dia 21 de maio de 2024 confirma o uso ilícito do dinheiro público.
“Rérison orienta [chefe de gabinete] a deixar todos os apontamentos averbados na JUCETINS, referentes à Pousada Pedra Canga, em seu nome, ratificando o escopo atual e contemporâneo de dissimulação do capital ilicitamente auferido no governo do Estado, para ser empregado em sua edificação”.
Operação investiga suposto esquema de desvio de recursos públicos durante pandemia
Operação Fames-19
Esta é a 2ª fase da Operação Fames-19, que busca reunir novos elementos sobre o uso de emendas parlamentares e o recebimento de vantagens indevidas por agentes públicos e políticos com a compra de cestas básicas durante a pandemia de Covid-19.
Segundo a decisão, são apurados os crimes de frustração ao caráter competitivo de licitação, peculato, corrupção passiva, lavagem de capitais e formação de organização criminosa.
Conforme a PF, as investigações apontam fortes indícios de um esquema de desvio de recursos públicos em 2020 e 2021. Nesse período, os investigados teriam se aproveitado do estado de emergência em saúde pública e assistência social para fraudar contratos de fornecimento de cestas básicas.
Em agosto de 2024, Wanderlei Barbosa e a esposa foram alvos de busca na primeira fase da operação. Nessa fase, políticos e empresários estavam entre os alvos.
Durante o cumprimento das buscas na casa e no gabinete de Wanderlei, os policiais federais encontraram R$ 67,7 mil em espécie, além quantias em dólares e euros.
Segundo a apuração, foram pagos mais de R$ 97 milhões em contratos para fornecimento de cestas básicas e frangos congelados. O prejuízo aos cofres públicos é estimado em mais de R$ 73 milhões.
Conforme a investigação, os valores desviados teriam sido ocultados por meio da construção de empreendimentos de luxo, compra de gado e pagamento de despesas pessoais dos envolvidos.
Íntegras das notas das defesas
Nota da Secretaria Estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social (Setas)
A Secretaria Estadual do Trabalho e Desenvolvimento Social (Setas) informa que tem colaborado com as investigações e encaminhado informações aos órgãos de controle internos e externos para instruir as tomadas de contas que foram instauradas. A Setas reforça seu compromisso em colaborar com as autoridades competentes.
Nota defesa Rérison Castro
Ele não foi alvo da operação. Não temos acesso ao IPL, à representação e à decisão que determinou as medidas cautelares. Certo que o Rérison não é servidor do Estado e não tem nenhuma vinculação com os crimes investigados.
Nota de Mauro Carlesse
A defesa do ex-governador Mauro Carlesse lamenta os recentes acontecimentos envolvendo o Estado do Tocantins e esclarece que, durante todo o período em que Mauro Carlesse exerceu o mandato, inexistiu qualquer ato ou decisão de sua responsabilidade relacionado aos fatos apurados.
Ressalta, ainda, que o ex-governador não figura como investigado, réu ou alvo de quaisquer medidas decorrentes da operação, não havendo, portanto, qualquer imputação contra sua pessoa.
Por fim, a defesa reafirma sua confiança nas instituições e no pleno esclarecimento dos fatos, convicta de que a apuração confirmará a total ausência de envolvimento de Mauro Carlesse com os acontecimentos sob investigação.
Nota de Karynne Sotero
Reitero meu respeito à decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e às instituições, ressaltando que irei dedicar-me plenamente à minha defesa, convicta de que conseguirei comprovar minha total ausência de participação nos fatos que estão sendo apontados.
Desejo que tudo seja esclarecido e reestabelecido com brevidade e justiça, pelo bem do povo tocantinense, a quem dedico meu trabalho e compromisso.
Nota de Wanderlei Barbosa
Recebo a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) com respeito às instituições, mas registro que se trata de medida precipitada, adotada quando as apurações da Operação Fames-19 ainda estão em andamento, sem conclusão definitiva sobre qualquer responsabilidade da minha parte. É importante ressaltar que o pagamento das cestas básicas, objeto da investigação, ocorreu entre 2020 e 2021, ainda na gestão anterior, quando eu exercia o cargo de vice-governador e não era ordenador de despesa.
Reforço que, por minha determinação, a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) e a Controladoria-Geral do Estado (CGE) instauraram auditoria sobre os contratos mencionados e encaminharam integralmente as informações às autoridades competentes.
Além dessa providência já em curso, acionarei os meios jurídicos necessários para reassumir o cargo de Governador do Tocantins, comprovar a legalidade dos meus atos e enfrentar essa injustiça, assegurando a estabilidade do Estado e a continuidade dos serviços à população.
Nota de Thiago Barbosa
A defesa do Dr. THIAGO MARCOS BARBOSA CASTRO DE CARVALHO esclarece, em relação à Cautelar Inominada Penal n° 139-DF do STJ, cujos desdobramentos foram cumpridos nesta data na cidade de Palmas (TO), que seu nome foi referido na decisão por absoluto equívoco, tendo em vista que não é investigado na Operação Fames-19 e da mesma forma não foi alvo das medidas cautelares.
Vale gizar que a o Dr. THIAGO BARBOSA nunca exerceu o cargo de assessor especial do Governo e, tampouco qualquer outro cargo no Executivo Estadual, e que a menção ao nome de “Thiago” possivelmente se refira a outra pessoa diversa, portanto, um homônimo.
Por fim, a defesa informa que já adotou as providências cabíveis junto ao Ministro Relator no STJ para que seu nome seja efetivamente excluído das investigações da Operação Fames-19.
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